PENSE SKATE, MAS NÃO SEJA BURRO!

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27

de
abril

DUANE PETERS OLD SCHOOL MODEL GARDHENAL

por Guto Jimenez

Medidas: 33” comprimento (83.82cm) X 9” largura (22.86cm) X 15.5” wheelbase (39.37cm)

Quando o “Mestre do Desastre” Duane Peters esteve no Brasil no ano passado, excursionando com o US Bombs, assinou um contrato com o Ragueb Rogério da Gardhenal pra fabricação de uma série limitada de tábuas. O proto-skate punk sacou que o objetivo da marca não era só fazer uma grana de maneira oportunista, mas sim fazer um produto de qualidade que também homenageava um dos maiores ícones do skate vertical em todos os tempos. Além disso, Duane viu e aprovou os produtos feitos pela fábrica, e um dos resultados dessa união é o que eu vou dissecar aqui.

Ganhei de Ragueb uma tábua com o model Old School, com “diamond shape” bem funcional no tail, nose mais curto que os modelos atuais e largura como as das antigas medidas. Claramente dirigido a skatistas que passaram pelos anos 80, como eu, é um produto com roupagem e técnica de fabricação modernas pra ser usado & detonado não só em pistas, mas também nas ruas em boas sessões de downhill speed ou até mesmo de street. Esse último já não é mais o meu caso, embora não tenha me decepcionado quando preciso subir calçadas de ollie ou quando vou à Pirâmide recordar os velhos tempos que não voltam mais.

A construção sólida da tábua já não era uma novidade pra mim, pois já tinha usado um model Grinders da mesma marca e havia me impressionado com a rigidez da madeira. Robusta, sim, mas nem por isso pesada; a Gardhenal desenvolveu uma forma de colagem e prensa das lâminas de maneira a torná-las resistentes sem aumentar o peso do produto final. Tudo isso usando madeiras nacionais, que não têm a mesma fibra resistente que o “maple” canadense usado em tábuas importadas – pra você ter uma idéia, é extraído da árvore o delicioso “maple syrup”, uma espécie de melado natural e delicioso . Eu já trabalhei no meio e posso dizer pra você que pra se usar madeiras como marfim ou goiabão, e fazer-se algo que seja rígido e não seja um toco, é fruto de muito trabalho e dedicação naquilo que se faz.

O que mais me chamou a atenção quando pisei na tábua pela primeira vez foi o concave. Nossa, há quanto tempo não sentia os meus pés grudarem tanto num skate! Não é tão profundo quanto o era há uns 20 anos, mas é bem mais acentuado que os de hoje em dia, e faz os pés “colarem” na lixa. E isso é fundamental quando se passa a parte funda do Rio Sul de carving ou se dropa uma ladeira com eixos com pads e rodas grandes praquela sessãozinha de downhill slide, coisas que o tiozinho aqui aprecia fazer de vez quando posso. Também o wheelbase é sem miséria, largo o bastante pra se adicionar mais firmeza ainda tanto em transições de pistas quanto em ladeiras e apropriado às generosas dimensões da madeira.

Se você é streeteiro, não vai se decepcionar com essa tábua – pelo contrário, é mais fácil se surpreender e se amarrar nela. Afinal, o nose pode ser um pouquinho só mais curto que os mais modernos, mas é largo o suficiente pra encaixar os pés nos noseslides e crookeds da vida. E o tail – ah, o tail! Tem aquele “pop” tão necessário quando você vai se atirar num gap ou encarar um corrimão; isso é algo que não é pra mim, mas fico imaginando a funcionalidade que teria uma tábua mais larga pros que preferem se atirar na velô do que tentar a mesma manobra 300 vezes a 2 km/h. Acho que a boa angulação de tanto o nose quanto o tail deve atender às necessidades do fanático por switch, embora não tenha usado a tábua pra esse fim. Lembre-se: os únicos limites são os impostos pela sua própria imaginação.

A Gardhenal ainda faz um model “banana shape”, igual aos dos dias atuais. Se mantiver as qualidades do model Old School, pode apostar o seu dinheiro na tábua que você terá em mãos um produto vencedor que não perde nada pra uma Black Label, por exemplo. O único porém foi a furação, que somente veio no padrão mais fechado e me levou a lembrar os velhos tempos de outrora ao me fazer acionar o kit furadeira… Nada que possa diminuir a ótima impressão, ainda mais depois que soube que o Ragueb ajoelhou no milho por dias em sinal de penitência pelo quase pecado mortal. Bom menino ele é, e muito boa madeira a que ele faz.

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19

de
abril

SOB FOGO CRUZADO PARTE 2

“Assim o é, se lhe parece”. (William Shakespeare)

por Guto Jimenez

Então vejamos: de acordo com os fabricantes de tábuas pro models, comprar blanks e shop decks podem matar a “galinha dos ovos de ouro”, pelos motivos que vimos antes. Pensar só com o bolso, ao invés de fazê-lo com consciência, é um veneno que pode matar o mercado do skate da maneira que o conhecemos nos dias de hoje.
A questão que não quer calar é: a culpa é só de quem compra blanks e shop decks, seja quem for?

O que mais me chamou a atenção no manifesto da indústria de tábuas, o “Under Fire”, foi a cegueira coletiva de alguns que estão por trás do segmento. Veja alguns comentários:
“São os pros quem validam e definem a imagem de uma marca”. (Bod Boyle, Dwindle Distr.). Ué, primeiro a World Industries extingue os pro models – e agora ele reclama?! Quem com ferro fere…
“O mercado americano ainda está saudável, mas o mercado internacional tem sido muito afetado pela quantidade de produtos muito baratos sendo oferecidos”. (Chris Carter, DNA Distr.). Não é só por isso, cara-pálida: no mundo inteiro há cada vez mais praticantes de transições, downhill, slalom e freestyle, modalidades ignoradas por grande parte de fabricantes de pro models.
“Num mercado decadente, é muito importante ajudar e apoiar empresas que dão ao mercado força e personalidade” (Dan McGee e Joe Burlo, Blueprint). Ah, bom; se eu entendi direito, sob condições normais o que vale é a selvageria capitalista da concorrência desleal…
Já outros cabeças da indústria têm pensamentos bem conscientes, saque só:
“Embora eu goste do modelo de 7-ply (= 7 camadas), qualquer um pode fazê-lo. Portanto, em relação à produção, não há muita inovação acontecendo no momento”. (Jamie Thomas, Black Box Distr.)
“Como lojista, eu entendo o porquê desses produtos existirem”. (Colin McKay, Plan B)
“Blanks são os sanguessugas do skate: chupam tudo e não dão nada de volta” (Jim Thiebaud, Deluxe Distr.)
A opinião mais lúcida veio daquele que é o mais veterano entre os envolvidos no setor, Bob Denike da NHS/Santa Cruz. Veja o petardo:
“A contínua inércia da indústria é a maior ameaça; todos esperam que alguém surja com uma resposta mágica. A constante falta de compromisso com inovações e novas idéias no setor, que começou em meados dos anos 90, só aumentou e permitiu que esses produtos mais baratos fossem vendidos por empresas que não reinvestem de volta no skate. E isso está lentamente erodindo as fundações desse negócio”.
Não é à toa que Denike não é uma das figuras mais populares no meio industrial americano…

Agora saque só alguns dados estatísticos, espantosamente fornecidos pelo mesmo manifesto / estudo:
- 5.000 models são lançados por ano pela indústria - mas se esqueceram de dizer quantos deles são pro models (que geram royalties não-informados) e quantos são models de marca;
- cerca de 800 skatistas recebem materiais das marcas. Num universo de 12 milhões de skatistas nos EUA, de acordo com a Board-Trac, isso dá uma porcentagem de 0.006666%… Ou seja, 1 em cerca de 15.000 skatistas é agraciado com materiais pelas generosas marcas. Se isso não for uma estatística de elite, não sei o que seria;
- cerca de 400 demos e outras cerca de 400 premières de filmes são bancados pela indústria por ano. Quando se sabe que mais da metade é bancada por marcas de tênis e roupas, vê-se que os fabricantes de decks não gastam tanto quanto querem fazer entender;
- 0.7 % da receita são gastos com os seguros de pros. Pra quem por vezes arrisca a saúde e a vida, é de uma mesquinharia sem medidas.
Sinceridade? Eu teria vergonha de divulgar números assim. Nem com a mais descarada manipulação esses números podem ser vistos como positivos pra indústria.

Bom, você agora sabe as causas e os efeitos dos problemas, sob diversos pontos de vista. Opine, faça as suas observações, dê o seu palpite. E aguarde a parte final do assunto, que fala das “responsabilidades”.

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http://www.fotolog.com/penseskate

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