Há uns dias, eu recebi um email de um amigo muito bem relacionado lá dos EUA, que me passou uma notícia que me deixou um bocado apreensivo e bem puto até. Traduzo literalmente parte do conteúdo:
“Pode começar a ficar indignado: alguns dos dirigentes mais influentes do COI reuniram-se com a ICU (International Cycling Union, a União Internacional de Ciclismo - ?!) e deliberaram pela inclusão do skate como esporte olímpico a partir de 2012.” Uns dias depois, a bomba saiu até no New York Times: a ICU irá “adotar” o skate até o fim do mês como sub=modalidade (!), adequá-lo aos critérios olímpicos (!!) e, em 2 anos, organizar o esporte mundialmente (!!!). Estranhamente, a WCS ainda não se pronunciou sobre o assunto.
Não é de hoje que esse assunto ronda o meio do skate. Desde que alguns skatistas fizeram uma demo no encerramento das Olimpíadas de Atlanta, em 1996, que vira e mexe essa pauta retorna à discussão. Tudo bem que aquela foi a demo de skate que teve a maior audiência da história (cerca de 1 bilhão de telespectadores) – mas mudou alguma coisa pro cenário?! Uma outra dica de que o assunto poderia retornar à pauta foi a apresentação de slalom na abertura dos últimos jogos de inverno em Milão, há pouco mais de um ano. Nem assim a ISSA (International Slalom Skateboard Association) teve maior facilidade em organizar o circuito mundial da modalidade.
Meu camarada sabe que eu sempre fui contra essa coisa. A única coisa de positiva que vejo, numa hipotética inclusão do skate como modalidade olímpica, seria que os governos poderiam construir cada vez mais pistas pra prática de mais um esporte que disputa medalhas. Só isso e nada mais. Esse aspecto, inclusive, me foi exposto por um dos grandes defensores da idéia, o atual tetracampeão mundial de vert Sandro Dias, numa das últimas vezes que nos encontramos. Eu admito que é um ótimo motivo, ainda mais no Brasil, mas não o suficiente pra me fazer mudar de idéia.
Por quê sou contra? Primeiro porque todo esporte olímpico individual tem critérios de julgamento determinados e pré-estabelecidos; ou seja, cada manobra ou movimento tem a sua própria cotação. Aí eu pergunto: como determinar que um switch heelflip backside boardslide, por exemplo, seria melhor que outro?! Se os juízes de skate até hoje cometem decisões polêmicas, é esperar demais que tomem jeito de uma hora pra outra só porque o skate faz parte da competição dos 5 anéis.
Outra coisa que acho muito estranho em algumas dessas modalidades olímpicas é que existem movimentos obrigatórios; essa esquisitice também já assolou o skate em priscas eras. Lembro que, nos anos 70, as disputas de freestyle continham manobras obrigatórias – se não me falha a memória, eram tail e nose wheelies, walk the dog, space walk e 360s. Tentou-se fazer o mesmo com o vert, mas não deu certo. Fico imaginando quais manobras poderiam ser obrigatórias no skate ao nível que está hoje em dia… Sem falar que esse critério é extremamente limitador à criatividade do praticante, seja de qual esporte for.
Esses são só alguns dos aspectos técnicos que eu abordo aqui, mas a coisa vai muito além disso. Eu ouso dizer que o COI está buscando uma espécie de renovação do interesse dos patrocinadores dos jogos olímpicos de verão, da mesma maneira que fizeram com as olimpíadas de inverno ao adotarem o snowboard como modalidade olímpica. Antes da adoção, a FIS (Federação Internacional de Ski e Snowboard) considerava o snowboard como uma mera “distração de adolescentes”, e fazia competições bem nas coxas e cheios de má vontade. A molecada começou a considerar o esqui como coisa de mauricinhos ou velhos, o esporte foi crescendo e tornou-se o que mais crescia (e vendia) dos esportes de inverno… e a FIS teve de enfiar a viola no saco. Outra entidade foi formada pra regular o snowboard, o COI adotou as pranchas de neve, os jogos de inverno foram salvos e todos viveram felizes para sempre.
Qualquer semelhança com o skate NÃO terá sido mera coincidência. O COI não adotou o bicicross como modalidade olímpica à toa, mas sim como maneira de atrair a atenção dos jovens aos jogos olímpicos; isso quer dizer mais audiência pras redes de tv, mais grana a ser cobrada dos patrocinadores - mais interesses comerciais satisfeitos, enfim. Os bikers estão sendo usados como cobaias e nem ligam, afinal qualquer divulgação é lucro pra quem tem pouca exposição na mídia e/ou vive na carona do skate nos eventos de tv.
Outro argumento em defesa da inclusão do skate como modalidade olímpica é aquele velho “pense na divulgação que o skate possa ter”. Ué, o skate já não tem divulgação suficiente?! Tirando o futebol e o basquete, quais outros esportes olímpicos têm a mídia, mercado, a quantidade de ídolos e o número de praticantes no mundo todo que o skate tem? Acho que você já deve saber da resposta.
O que me deixa mais indignado com essa atitude oportunista do COI é o fato deles, na sua arrogância, terem o displante de dizer que “o skate passará a ter a legitimidade, o reconhecimento e o status característicos de um esporte olímpico”. Como assim, cara-pálida?! Quem disse que o skate precisa de alguma coisa do COI?! O skate já é legítimo, reconhecido e tem o seu próprio status independente do que essa entidade esdrúxula e ultrapassada possa fazer. SEMPRE andamos com as nossas próprias pernas, descobrindo novos terrenos, formando e desenvolvendo novas modalidades; foi o nosso esforço que fez o skate se tornar o que é hoje em dia. Quando digo “nosso”, digo de skatistas de um modo geral, e não só dos grandes ídolos de todos os tempos.
Pra mim, isso é um oportunismo da pior espécie, motivado por um motivo simples: dinheiro. Não há um genuíno interesse esportivo nisso; o que acontece é que as redes de tv americanas vêm pagando cada vez menos pelos direitos de transmissão dos Jogos. Isso porque a juventude americana tem dado mais audiência a eventos esportivos de esportes de ação do que a disputas de esportes tradicionais, aí incluindo os 4 “jock sports” favoritos dos americanos (basquete, futebol americano, beisebol e hóquei no gelo) e as modalidades olímpicas. Como americano não paga nem um centavo a mais acima do valor do que quer que seja, a pressão vinha sendo formada e o COI teve de ceder. Como se diz nos EUA, “money talks and bullshit walks” – algo como “o dinheiro fala mais alto”.
Infelizmente eu já esperava por isso. Desde que o skate virou profissão, e muitos skatistas o passaram a encarar como uma mera escolha de carreira, que aguardo por isso. Mas nem assim consigo me conformar. E uma grande dúvida ronda a minha mente: será que, se o skate for aceito como esporte olímpico, ele será mais respeitado por pais, autoridades e quem quer que seja?
Não sei não. Acima de tudo, o skate é um estilo de vida antes de ser um esporte. Somos o tipo de gente que vai estar num lugar onde não era pra estarmos, numa hora em que ninguém esperava e fazendo aquilo que ou é proibido ou é inesperado. Podem fazer quantas pistas quiserem – nenhum corrimão, nenhuma parede, transição ou ladeira estarão a salvo. O fato de ser proibido nunca nos impediu de andarmos de skate onde quer que queiramos, na hora que quisermos, do jeito que desejemos.
Essa é a alma do skate, faz parte do DNA de cada skatista. Enquanto for assim eu digo: skate nas Olimpíadas?! Incluam-me fora.
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