30
de
outubro
O FUTURO JÁ COMEÇOU

Por Guto Jimenez Foto Fernando Martins
Responda rápido: qual notícia relativa ao mercado de skate é a mais impactante desse ano?!
a) A premiação recorde do Maloof Money Cup, a maior em eventos de esportes de prancha de todos os tempos;
b) A compra da Alien Workshop pela Burton, marca de snowboard;
c) O lançamento dos produtos assinados pelo Shaun White pela Target, rede de varejo americana;
d) A queda abrupta dos lucros da Volcom Q2;
e) A compra da Sector 9 pela Billabong, gigante do surfwear.
Pode cravar a letra E sem a menor dúvida.
“Como assim?!”, você se perguntará. Calma que eu explico melhor…
A letra "E” é o fato mais relevante que aconteceu no mercado de skate não só nesse ano, mas dos últimos tempos também. Nesse século, somente o lançamento do filme “Dogtown and Z-Boys” pode ser comparado em termos de impacto de mídia e mercado. Não se esqueça de que, após o documentário vencer o Sundance Festival em 2002, o mundo e a grande mídia “descobriram” que existem skatistas veteranos que fizeram história – e uma boa parte da mídia especializada também, aliás… A partir daí, outras modalidades como o vert em pistas de concreto, slalom e até mesmo o speed começaram a ter muito mais portas abertas em termos de praticantes, eventos e mídia. Muito mais mercado, enfim.
Alguns fatos isolados anteriores ao anúncio da aquisição da marca já davam a entender que o mercado estava se movimentando numa direção no mínimo diferente da qual vem rumando nos últimos 15 anos: o midas Tony Hawk lançou um game só de downhill speed – e ele jamais entra numa furada comercial; algumas provas de speed na Europa têm transmissão de TV – coisa impensável há alguns anos; a WCS vem promovendo muito mais eventos de bowls do que os que seguem o fatídico formato “street-e-half”…
Seria tudo isso uma mera coincidência?! Claro que não. “No mundo dos negócios, não existe almoço de graça” – pelo menos, sem que aquele que esteja pagando não veja uma perspectiva muito animadora à sua frente.
Agora olhe de novo pra letra E lá em cima, e leia as entrelinhas. Você acha mesmo que isso somente dirá respeito aos donos da Sector 9?! Nada disso! As consequências serão impactantes pro mercado de skate de um modo geral, e não somente pro mercado de longboards. Estamos falando da Billabong, uma das maiores empresas de surfwear do mundo. Os mesmos que, após terem comprado a Element, a fizeram tão popular a ponto de a marca ser uma das favoritas dos camelôs de camisetas piratas em todo o mundo. Os mesmos que transformaram os relógios Nixon e as roupas da Von Zipper em objetos de desejo por gente de bom gosto de todo o planeta. E isso só acontece com quem tem não só muito estilo, mas uma eficiente máquina de marketing trabalhando sem parar nos bastidores.
Agora pergunte-se se as outras corporações gigantes que vêm investindo pesado no skate vão ficar só olhando a Billabong deitar e rolar; acho que nem preciso dar a resposta, né não?! Nike, Adidas, Quiksilver, a já citada Burton e muitas outras corporações estão, no mínimo, com as sobrancelhas levantadas prestando muita atenção nesse movimento inusitado de peças no tabuleiro do mercado de skate. Fica claro que a Billabong irá investir pesado na marca, que a tornará muito mais acessível ao público através da imensa rede de distribuição da marca e que a fará ir mais longe em termos de divulgação e marketing.
É lógico que os outros não irão ficar só olhando a Sector 9 encher mais os cofres dos seus novos donos. Sabendo-se que o lucro agregado de produtos de longboard é muito superior aos ligados ao street, é óbvio que as outras corporações muito em breve estarão também “indo às compras”. E isso será impactante pro cenário de skate, de uma maneira jamais vista antes.
Não duvide de minhas palavras; eu não sou um sabe-tudo nem muito menos adivinho, mas já vi muito chão passar embaixo das rodas. Desde que comecei a andar de skate, em meados dos anos 70, que venho acompanhando que alguns fatos marcantes vêm acontecendo com uma certa frequência na história do carrinho. Primeiro foi a invenção do uretano, que tornou as rodas finalmente seguras e controláveis e fez o skate ficar muito popular ao redor do globo; depois, quando o skate estava em baixa no iníco dos anos 80, surgiu a Thrasher pra ajudar a levantar o cenário e trouxe o mercado a reboque. Mais uns anos adiante, o surgimento do conceito de “street wear” levou a moda do skate aos não-skatistas pela primeira vez, de maneira definitiva como vemos até hoje. O vert dominou o cenário por anos e “morreu”, quase matando o skate também no início dos anos 90…
… E a partir daí, o cenário de skate virou-se pro lado do street e o mercado expandiu-se a níveis jamais antes vivenciados - e ficou estagnado como jamais o havia sido em toda a sua história. O mercado parece que havia achado a “galinha dos ovos de ouro” quando o street passou a ser a modalidade favorita dos moleques em todo o mundo; afinal, menos material era gasto pra se fabricar tábuas, eixos e rodas, mas os preços continuavam os mesmos… Era tudo o que o skate precisava naquele momento, dar a opção dos moleques poderem simplesmente botarem os carrinhos nas ruas e andarem, sem precisarem ir a lugares especialmente feitos pra se andar de skate cujos custos de manutenção e seguro passaram a ficar inviáveis. Quando grandes corporações abriram os olhos pra movimentação, e começaram a investir (e jogar) pesado no mercado de skate, as consequências vieram da maneira mais visível possível – os Xgames.
O mercado adorou tudo isso. E cometeu o seu pior erro, ficando acomodado. Ficou cego às maiores e melhores características do skate - criatividade e diversidade. Ficaram pensando que todo skatista é um moleque de menos de 18 anos que pratica street…
Só que, como o pior cego é aquele que não quer ver, nem alguns evidentes sinais isolados fizeram com que o mercado acordasse. Os próprios Xgames, por exemplo – a audiência maior sempre é nos eventos de vert, pois o público leigo jamais conseguiu entender o street. O já citado filme “Dogtown and Z-Boys”, que gerou uma versão blockbuster de Hollywood. A valorização dos veteranos, o retorno das pistas de concreto ao redor do mundo, a revalorização de modalidades como o downhill speed e o slalom… Não faltaram indicações de que um movimento diferente estava mexendo com o mercado de skate.
E, agora, a Billabong comprou a Sector 9.
O encanto do mercado com o street parece estar chegando ao seu fim.
Os longboards estão tomando os seus lugares ao sol com força total. Tomara que a variedade de modalidades, praticantes e estilos façam com que o cenário de skate reaprenda a cultivar e valorizar aquilo que o skate tem de mais positivo – a diversidade. Como se se ouvisse um grito coletivo de “chega!” pro atual estado das coisas.
Como diz aquele jingle meio brega de fim de ano, “o futuro já começou”. O tempo nem volta atrás e nem espera ninguém. Se você jamais pisou num longboard na vida, é mais do que hora de experimentar. Abra a sua mente – e o seu coração irá na mesma direção.
Acesse também:
http://www.penseskate.com.br/index2.phtml?link=home.php


Comentário por BRUNO FUNIL — 11 de novembro de 2008 (10:45)
É sempre enriquecedor a leitura de textos como este, obrigado mais uma vez Guto.
Realmente coisas novas acontecem no meio do Skate, tenho contato DIRETO com Skatistas de todas as idades e percebo um interesse muito maior, inclusive dos mais novos, por modalidades como o Downhill, também mostram se mais interessados em desenvolver mais seus rolés nos terrenos com CURVA, pois nos próprios vídeos que tem o Street como carro chefe, podemos conferir que os “caras” mais admirados hoje, sempre apresentam no meio de suas partes nos vídeos, além de sessões de Street, manobras embaçadas em Pools, Banks e Bowls…ou seja, um rolé OVERALL.
A próxima fase é essa, a simpatia e conhecimento das modalidades mais velozes tornará se muito maior, provavelmente daqui a algum tempo a molecada não pedirá mais UM SKATE de presente de aniversário, mas sim DOIS SKATES (UM LONGBOARD E UM CONVENCIONAL), onde poderão aproveitar com mais prazer e material adequado a rua, os banks, as piscinas, as ladeiras e etc…
Coordeno uma escola de Skate a 5 anos, mais voltada para o Street, no entanto sempre levo meu Longboard e a fila do “ME EMPRESTA SEU LONG TIO FUNIL” não para…e os comentários de “COMO ESSE SKATE CORRE!” transmitem a tendência.
Será ótimo termos o Speed e o Skate em transições muito mais em foco do que hoje, mas o Street continuará, assim como o Freestyle.
Skate sempre!!!