28
de
fevereiro
Uma dúvida existencial:
Diversão ou profissão - ou os dois?
Por Guto Gimenez
Pergunte pra qualquer skatista que mal saiba dar um flip o que espera do skate; chances serão de que uma imensa maioria vai te responder que quer ser patrocinado(a) e virar profissional. Isso não é novidade nenhuma, só que traz uma nova perspectiva ao ato de se andar de skate: virou uma opção profissional. Pode-se querer estudar medicina, computação ou design gráfico - e pode-se querer ser skatista profissional por um bom tempo.
Tudo muito certo, tudo muito justo - mas onde fica a diversão no meio disso tudo?
Olhe pra sua própria história como skatista e faça-se uma pergunta: "por que eu comecei a andar de skate?" As respostas variam, e a mais comum é "porque o meu irmão ou todos os meus amigos de prédio / quarteirão / bairro começaram a andar". Aconteceu comigo e com milhões de skatistas no mundo afora ao longo dos anos. "Porque vi na tv / revista / um dvd, achei maneiro e resolvi experimentar" é outra resposta favorita dos que pisam no carrinho pela primeira vez.
Os motivos pra começar variam, mas a razão que nos leva a continuar é uma só: andar de skate é muito bom! E, como tudo que é bom de se fazer nessa vida, traz um prazer incomparável, uma sensação de realização pessoal indescritível. A isso, chama-se de diversão.
Essa sensação vai te acompanhar enquanto você andar de skate, tenha a idade que tiver. Mas tudo fica muito diferente quando, ao invés de dar um rolé, você passa a "treinar"; quando, antes de você marcar uma sessão com seus camaradas, tem que certificar se vai ter alguém filmando ou fotografando; quando você vai tentar uma manobra num pico, e tem que saber se alguém já não mandou-a antes ali. Tudo na vida perde a espontaneidade quando vira obrigação, e não é diferente com o skate.
Já passei por todas as fases de um skatista que você possa imaginar - de moleque que andava nas ruas do bairro, passei depois pras ladeiras da área. Corri os meus primeiros campeonatos, adquiri maior experiência e fui subindo de categorias até virar um "semi-pro" de street - nos anos 80, não havia profissionalismo de skate no Brasil. A carreira competitiva acabou quando operei o joelho, mas nunca deixei de andar. Fui envelhecendo e continuando até chegar onde estou hoje em dia, andando de skate por simples prazer mais uma vez na vida.
Por quê bato tanto na mesma tecla? Porque vejo coisas hoje em dia que me entristecem: não se vibra mais com manobras acertadas por outros como antes. Não se tem mais aquela satisfação gratuita de ver um parceiro acertar alguma coisa perseguida por um bom tempo. Não se torce mais pelos outros como se torce pra si mesmo - tudo porque o skate virou uma profissão, e como toda carreira é bastante competitiva e vai sempre selecionar os "melhores".
E é tão difícil conseguir patrocínio… Uma pesquisa feita nos EUA em 2005 estimou em 12 milhões o número de skatistas daquele país, o que é gente pra cacete, cerca de 6% de toda a população americana. Pois você quer saber quantos skatistas são pros, amadores ou recebem algum tipo de material do mercado de skate? Não chega a 8000 - ou seja, pouco mais de 0.05% do total. Pra ser mais preciso, é aquele dízimo quase infinito de 0.0666%. Pouco mais de 1 em cada 10000 skatistas ganha alguma coisa de alguém pra andar de skate, nem que seja camisetas de loja. E isso nos EUA, que tem um mercado muito evoluído em todas as modalidades de skate que você imagine, e que tem pros que nem em campeonatos entram, ganhando a vida entre filmagens e demos pelo mundo afora.
E os outros quase 9.999 skatistas, vão fazer o quê? Parar de andar?!
Claro que não. Todos continuam andando, alguns vão até continuar a sonhar em virar pro, mas a força-motriz sempre foi uma só: a diversão que mencionei lá em cima. Porque, com ou sem "grana, fama e mulheres", uma coisa não mudará jamais - o prazer de sentir o vento no rosto, a satisfação pessoal de se acertar uma manobra ou de se chegar vivo no final da ladeira. E isso é como aquele anúncio de cartão de crédito - não tem preço.
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